quinta-feira, 30 de abril de 2009

Culpa de Marie Curie

Radiohead Ao Vivo de Sampa

O show completo pelo Multishow.

Blizar

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A Empresa e a Quântica

Estava eu em mais um sebo, aliás é nesse de sempre que acho meus garimpos mais estranhos, quando me deparei caoticamente com um livro velho: A Empresa Quântica. Despretensiosamente, achando ser mais uma literatura pop management, peguei, e é até hoje surpreendente ver um brazuca de destaque ousando onde eu sempre quis e considerado inovador, com toda a glória e dor que esta categoria de trend traz consigo.

Clemente Nóbrega é graduado em Física, doutorado em Engenharia Nuclear e MBA em Harvard, tendo trabalhado na NASA e como diretor de marketing da Amil, quando ela começou a aparecer e mudar o posicionamento nos idos anos 90, com helicópteros, rapidez, tecnologia de ponta e processos que facilmente a diferenciaram da categoria da massa. Ele, então, resolve escrever este livro, sobre como as empresas são processos bio-lógicos, em contraponto ao mecanicismo preconizado por Newton e Taylor, necessários, mas incapazes de explicar o mecanismo evolucionário de sistemas dinâmicos adaptativos.

É nessa levada que ele traz a incerteza pro centro da discussão, vai fazendo o caminho do séc. XX pontuando as conquistas em física com linguística, filosofia e implicações sociais, sobre a máquina, o bioma, darwin e a dualidade dos fatos, a interconectividade dos campos científicos, a emergência espontânea.. basicamente Clemente vai maravilhando a experiência com citações de livros de cientistas e geeks. É sempre fértil ter um livro onde falam Feynman, Gell-Mann, Bohm, John Brockman, Bertrand Russel, Pagels, Bruce Gregory, Wheatley, Ackoff, Waldrop, Gleick, Kevin Kelly, Dawkings, Dana Zohar, Ries e Trout dentre outros, alguns conhecidos antes da leitura, outros recém-admiráveis; alguns Nobel, vários conseguindo falar dos mistérios da vida a partir da perspectiva quântica.

A maravilha na emergência do instituto Santa Fe e seu mercado é o clímax, com análises superficiais dos processos empresariais (o livro não é uma bíblia, tem 380 páginas só) pontuando as novas linguagens que foram desenvolvidas ao lidar com problemas que as palavras só conseguiam deificar.

To amarradaço no livro, era o que eu estava esperando de catálise.

E o mais interessante, ele é grátis pra download aqui

Niké

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Livre-se

"Se nossos ancestrais não tivessem alterado a moral de Jesus, deificando-o, se não tivessem visto nele mais que um filósofo que desejava trazer os poderosos ao mesmo nível do povo, o fanatismo e o engano não os teriam agrilhoado ao pé dos reis e dos padres e hoje não teríamos que sacrificar nossas riquezas e nosso sangue para estabelecer o reino da razão e da liberdade. Que a liberdade, portanto, seja a nossa divindade [...]".

Frank Paul Bowman

Ótika

Inteligência e verdade
Duas aulas do Seminário de Filosofia, Curitiba, agosto de 1994

Inteligência, no sentido em que aqui emprego a palavra, no sentido que tem etimologicamente e no sentido em que se usava no tempo em que as palavras tinham sentido, não quer dizer a habilidade de resolver problemas, a habilidade matemática, a imaginação visual, a aptidão musical ou qualquer outro tipo de habilidade em especial. Quer dizer, da maneira mais geral e abrangente, a capacidade de apreender a verdade. A inteligência não consiste nem mesmo em pensar. Quando pensamos, mas o nosso pensamento não capta propriamente o que é verdade naquilo que pensa, então o que está em ação nesse pensar não é propriamente a inteligência, no rigor do termo, mas apenas o desejo frustrado de inteligir ou mesmo o puro automatismo de um pensar ininteligente. O pensar e o inteligir são atividades completamente distintas. A prova disto é que muitas vezes você pensa, pensa, e não intelige nada, e outras vezes intelige sem ter pensado, numa súbita fulguração intuitiva.

A inteligência é um órgão — digamos assim: um órgão — que só serve para isto: captar a verdade. Às vezes ela entra em operação através do pensamento, às vezes através da imaginação ou do sentimento, e às vezes entra diretamente, num ato intelectivo — ou intuitivo — instantâneo, no qual você capta alguma coisa sem uma preparação e sem uma forma representativa em especial que sirva de canal à intelecção. Outras vezes há uma longa preparação através do pensamento, da imaginação e da memória, e no fim você não capta coisíssima nenhuma: cumpridos os atos representativos, a intelecção a que se dirigiam falha por completo; dados os meios, a finalidade não se realiza. A inteligência está na realização da finalidade, e não na natureza dos meios empregados. E se a finalidade dos meios de conhecimento é conhecer, e se o conhecimento só é conhecimento em sentido pleno se conhece a verdade, então a definição de inteligência é: a potência de conhecer a verdade por qualquer meio que seja.

Oratória Completa aqui.

domingo, 26 de abril de 2009

Ah, um Soneto!

Meu coração é um almirante louco
Que abandonou a profissão do mar
E que a vai relembrando pouco a pouco
Em casa a passear, a passear…

No movimento (eu mesmo me desloco
Nesta cadeira, só de o imaginar)
O mar abandonado fica em foco
Nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas — esta é boa! — era do coração
Que eu falava… e onde diabo estou eu agora
Com almirante em vez de sensação?…

Álvaro de Campos

sábado, 25 de abril de 2009

Filosofaê

Por Thomas Blommaerts

Esta exposição visa explorar, brevemente, as principais escolas de pensamento da filosofia da matemática, e alguns dos problemas que impulsionaram este tipo de especulação filosófica. É direcionado a pessoas sem familiaridade com o assunto, principalmente.

Ao aceitarmos a evidente conclusão de que um matemático pode descobrir e provar novas verdades matemáticas sem ser capaz de dizer quais são as características próprias de uma prova ou verdade matemática, percebemos a necessidade de algo que examine a matemática, e que porém esteja além da mesma. Ou seja, percebemos a necessidade de uma filosofia da matemática. Enumerar as questões que surgem acerca dos usos e operações mais básicos da matemática seria uma tarefa longa e exaustiva, porém não precisamos de longas abstrações para chegarmos a questões como: A definição de número; a necessidade da matemática para descrever a natureza; de que forma existem as entidades matemáticas (e se elas de fato existem); como poder ter certeza da verdade de uma proposição matemática; etc.

Os gregos antigos analisaram tais questões com seriedade, e grande parte das especulações e discussões filosóficas da época se referia freqüentemente à aritmética e à geometria. Deste período, as considerações que mais influenciaram o pensamento posterior sobre a natureza das entidades matemáticas foram provavelmente as de Platão e Aristóteles. Platão propôs que os objetos da matemática, assim como as formas ou idéias platônicas, deveriam possuir uma existência puramente abstrata e não-material. Aristóteles refutou este ponto-de-vista nos livros M e N da Metafísica, alegando que, por exemplo, o quadrado geométrico é um aspecto significativo de uma mesa quadrada, mas o quadrado geométrico só pode ser compreendido ao deixarmos de lado aspectos irrelevantes como a medida do lado de tal quadrado, ou de que material é feita a mesa, etc. [1]

Durante séculos, a filosofia da matemática foi uma disciplina latente, não sendo reconhecida como uma área específica de especulação filosófica, e escolas divergentes de pensamento acerca da natureza da matemática ainda não podiam ser claramente distintas. Porém, data do início do século XX o crescente discernimento de que a matemática (em particular a Análise) não atingia o nível de certeza e rigor com o qual por tanto tempo foi creditada, juntamente com o advento do Cálculo de Predicados e da computação digital, e a conclusão de que toda a matemática pode ser codificada em teorias formais. Estes fenômenos afetaram profundamente a maneira como vemos a matemática, e visões acerca da resolução dos novos problemas propostos geraram diversas escolas, dentre as quais as conhecidas por formalismo, logicismo e intuicionismo. Um destes problemas é o das fundações da matemática, ou seja, descobrir de que parte ou área da matemática as outras podem ser derivadas.

O formalismo, uma das expressões dessa agitação filosófica, propõe que a matemática não seja nada além de um jogo formal, da manipulação algorítmica de símbolos. Por exemplo, no “jogo” da geometria euclidiana, de acordo com certos axiomas e regras de inferência, podemos provar o teorema de Pitágoras. Da mesma forma, os símbolos do Cálculo de Predicados não denotam predicados ou qualquer outra coisa. Segundo este ponto-de-vista, portanto, os símbolos matemáticos não são nada além de marcas no papel, do que podemos inferir que a matemática não pode querer ser qualquer tipo de conhecimento acerca de objetos matemáticos.

Contudo, há ramificações no próprio formalismo. De acordo com algumas de suas versões, a matemática seria literalmente este conjunto de símbolos que escrevemos no papel, tornando equivalentes qualquer um dos jogos, e sugerindo que não podemos provar nada com estes jogos, mas apenas joga-los. Esta visão nos deixa muitas perguntas acerca da natureza dos símbolos, da utilidade da matemática e transforma a matemática em uma atividade largamente banal, sendo assim pouco aceita.

Outra versão do formalismo é o dedutivismo, no qual um teorema ou verdade matemática não é uma verdade absoluta, mas relativa. Se considerarmos verdadeiros tais e tais axiomas de modo que certas regras de inferência se tornem verdadeiras, então teremos que aceitar o teorema. Assim, a visão formalista radical de que a matemática é apenas a manipulação de certos símbolos não é, neste contexto, necessária. A questão da existência de uma interpretação sob a qual as regras do jogo funcionem, portanto, não impede que o matemático continue seu trabalho e, até, deixe que a sugestão de sistemas de axiomas a serem estudados atenda as demandas da ciência ou de outras áreas da matemática.

Apesar da possibilidade de “flexibilizar” as visões formalistas, muitos não se contentaram com o mesmo, pois este parece ignorar os processos pelos quais os seres humanos compreendem a matemática, e pelos quais a matemática é formidavelmente aplicada – algo que não somente é um fato, mas foi e continua sendo uma das maiores motivações para a criação de novas ferramentas matemáticas, sendo o modelamento matemático de situações físicas e biológicas um dos melhores exemplos disso. Assim, outras doutrinas surgiram em reação a este ponto-de-vista, dentre elas o construtivismo, segundo o qual o conhecimento matemático é obtido através de uma série de construções puramente mentais. Assim, os objetos matemáticos existiriam apenas na mente do matemático, conferindo certeza ao conhecimento matemático. Logo, a relação da matemática com o mundo exterior é fonte de dúvidas, podendo até, em uma forma extrema de construtivismo, ser impossível (ou seja, a comunicação da matemática de uma mente para a outra não seria viável).

Uma das conquistas da escola construtivista é, não obstante, ter tornado consistente a cognição de objetos, operações e problemas matemáticos, por exemplo. Porém, a rejeição do mundo exterior (e o corolário perturbador segundo o qual leis lógicas aceitas universalmente como o princípio da não-contradição de Aristóteles teriam que ser abandonadas) torna-se uma barreira considerável para a adoção completa do construtivismo. [2] Todavia, à luz desta noção de que apenas entidades matemáticas que podem ser “explicitamente construídas” podem existir e serem admitidas no discurso matemático, o intuicionismo tomou forma. Nele, por mérito de L.E.J. Brouwer, uma lógica não-aristotélica é usada além do aparato conceitual construtivista acima exposto: a lógica intuicionista.

Esta lógica intuicionista nega, primeiramente, o princípio do “terceiro excluído”, ou tertium non datur. Este é o princípio segundo o qual para uma proposição “P”, é verdade que ou “P” é verdadeira, ou “P” é falsa. Um exemplo: Pedro é judeu ou Pedro não é judeu. Este princípio pode aparentar ser nada mais que senso comum, mas uma implicação importante da rejeição deste é a conseqüente rejeição de provas por contradição, ou reductio ad absurdum. Neste tipo de argumento, assumimos que algo possua tal atributo, chegamos a um resultado absurdo, e então concluímos que o que assumimos tem que estar errado, já que nos proporcionou um resultado absurdo. Este tipo de prova usa o princípio do terceiro excluído no que necessita da imediata conclusão de que se algo não pode ser falso, então tem que ser verdadeiro. Algumas das provas mais importantes de teoremas matemáticos foram atingidas por este método, entre elas a indiscutivelmente bela prova de Euclides acerca da infinitude dos números primos. Rejeitando este princípio, entre outros, resta uma tarefa imensamente árdua: Provar todos os teoremas que usam a lógica clássica, desta vez os fundando nesta nova lógica. Muitos matemáticos se dedicaram a tal tarefa, notadamente entre eles Errett Bishop, que provou versões dos mais importantes teoremas da Análise Real, no contexto desta lógica. Além da dificuldade de ter que reconstruir teorias matemáticas solidamente fundadas como a Teoria dos Conjuntos e o Cálculo, o intuicionismo foi muito criticado pois o termo emprestado do construtivismo, ou seja “construções explícitas”, não é definido claramente.

Retornando alguns anos na linha cronológica, já que este esboço tem até aqui seguido a origem e problemas de cada escola, em detrimento da sua data de origem (embora todas elas até aqui tenham sido desenvolvidas no século XX), nos deparamos com um nome que inevitavelmente necessita ser mencionado em qualquer texto que queira ao menos delinear a história da matemática: Gottlob Frege.

Frege foi o fundador do logicismo, uma teoria segundo a qual a matemática é uma extensão, ou seja, pode ser derivada da lógica e a ela pode ser reduzida. Em seu Die Grundgesetze der Arithmetik (As Leis Básicas da Aritmética), ele reconstruiu a aritmética usando um sistema de lógica, com a peculiaridade que este aceitava uma Lei Básica V, enunciando que para conceitos “F” e “G”, a extensão de “F” iguala a extensão de “G” se e somente se para todo objeto “a”, “a” pertence a “F” se e somente se “a” pertence a “G”. Contudo, Bertrand Russell, ao revisar o trabalho de Frege, descobriu que esta lei é inconsistente e gera um paradoxo, hoje conhecido como Paradoxo de Russell [3]. Esta descoberta foi provavelmente a causa do abandono do programa logicista por Frege. No entanto, foi pelo próprio Russell, conjuntamente com Alfred North Whitehead, que a doutrina logicista obteve grande êxito e número de adeptos.

Entre 1910 e 1913, Russell e Whitehead publicaram uma obra em três volumes intitulada Principia Mathematica, com o objetivo de derivar todas as verdades matemáticas de um conjunto bem-definido de axiomas e regras de inferência expressas em lógica simbólica. A maneira como Russell e Whitehead conseguiram se esquivar do paradoxo encontrado na obra de Frege foi elaborar um sistema de tipos: Um conjunto possui um tipo superior ao dos seus elementos e portanto não podemos falar sobre o “conjunto de todos os conjuntos” e construções similares, pois estas resultarão em paradoxo. Os Principia, não menos que uma obra seminal, cobriram apenas a Teoria dos Conjuntos e os números cardinais, ordinais e reais. Mesmo assim, já na publicação do terceiro volume, o princípio pelo qual toda a matemática poderia ser derivada da lógica já estava claro. A questão agora era se alguma contradição seria encontrada nos axiomas apresentados na obra, e se existiria alguma proposição matemática que não poderia nem ser provada nem o contrário, neste sistema. Estas questões foram resolvidas com o aparecimento em 1931 de uma das maiores descobertas intelectuais da humanidade, devida ao austríaco Kurt Gödel: Os teoremas da Incompletude.

A maneira como esta descoberta pôs um fim abrupto ao logicismo foi demonstrar, para além de qualquer questionamento, no que é chamado o segundo teorema da Incompletude de Gödel, que a aritmética não pode ser usada para provar sua própria consistência, do que se segue que ela não pode ser usada para provar nada mais forte do que ela mesma. A conseqüência da incompletude aqui, para um ponto-de-vista no qual a lógica formal é usada para definir os princípios da matemática, é que nós nunca poderemos encontrar um sistema axiomático que dê conta de provar todas as verdades matemáticas. Isto é uma paráfrase que sumariza o primeiro teorema da Incompletude. A partir desta implicação e daquela que já vimos, proveniente do segundo teorema da Incompletude, creio que fica ao menos ligeiramente ilustrada a profundidade da descoberta de Gödel, e o fenômeno que a mesma causou. [4] Além disso, em 1936 Alan Turing e Alonzo Church, independentemente demonstraram o que ficou conhecido como Entscheidungsproblem (problema da decidibilidade), segundo o qual ficou provado que é impossível decidir se uma conjectura é provável ou não, algo que apenas realçou ainda mais o efeito devastador da Incompletude. Conjecturas em aberto, como a famosa conjectura de Goldbach, podem para sempre ficar em aberto, e não temos como saber se isso é verdade ou não.

Em retrospecto, devido ao fracasso do sistema de Russell e Whitehead, alguns logicistas modernos se tornaram a um programa mais próximo do programa original de Frege. Eles obviamente abandonaram a Lei Básica V que vimos resultar em antinomia, mas a substituíram por princípios de abstração igualmente eficientes, nomeadamente o Princípio de Hume, segundo o qual o número de objetos que caem sob um conceito “F” é igual ao número de objetos que caem sob um conceito “G” se e somente se a extensão de “F” e a extensão de “G” puderem ser colocadas em uma correspondência “um-a-um”, ou seja, uma bijeção. [5]

Finalmente, traçar o desenvolvimento da filosofia da matemática no século XX requere a menção do renascimento e aprimoramento do platonismo na matemática, o que é também referido como realismo. Segundo esta doutrina, as entidades matemáticas existem independentemente da mente humana, assim sugerindo que nós humanos não inventamos matemática, mas a descobrimos, e o mesmo aconteceria com quaisquer seres do universo que possuíssem razão. Podemos já aqui notar o motivo da aplicação do termo platonismo a tal teoria, sendo esta um paralelo visível à teoria de Platão de um mundo ideal externo ao nosso, uma realidade imutável da qual nosso mundo é apenas uma aproximação imperfeita. Esta visão só é superada em idealismo por Pitágoras e seus seguidores, que acreditavam que o mundo era, de forma mística mas literal, composto por números.

Exemplos de matemáticos que eram adeptos deste realismo platônico em relação à matemática são Paul Erdős, um extremamente prolífico representante da Teoria dos Números, que face a uma prova matemática elegante exclamava “esta é do Livro!”, referindo-se alegoricamente a um livro onde as provas perfeitas de cada teorema estariam registradas, e o já mencionado Kurt Gödel, que acreditava em uma realidade matemática objetiva que poderia ser percebida de maneira análoga à percepção sensorial. Alguns princípios poderiam ser diretamente percebidos como verdadeiros, mas algumas conjecturas poderiam ser provadas indecidíveis. Porém, o que nos interessa, como sempre, é encontrar os problemas de cada doutrina, e no realismo o principal problema é rapidamente levantado em qualquer discussão na qual este seja apresentado: Como e onde existem as entidades matemáticas? Além disso, como nós conseguimos acessar temporariamente este mundo ideal e descobrir em parte ou totalidade verdades sobre tais entidades?

Considerarei, a fim de elucidar o melhor possível estas questões, argumentos da parte de dois dos mais significativos filósofos da matemática do último século, Willard van Orman Quine e Hilary Putnam. Um desses argumentos formulados por Quine e Putnam é o argumento da indispensabilidade, que diz que a matemática é indispensável para todas as ciências empíricas, e se queremos acreditar na realidade dos fenômenos descritos pelas ciências, temos que acreditar na realidade daquelas entidades requeridas para tal descrição. Portanto, ele argumenta que a existência das entidades matemáticas é a melhor razão para a experiência, o que faz a matemática perder uma parcela de seu status epistêmico. Mesmo assim, o argumento da indispensabilidade matemática é tido como o único bom argumento a favor do realismo platônico, e mesmo alguns autores que discordam entre si sobre a ontologia dos objetos matemáticos o defendem. [6] É também digno de nota o fato de que Putnam rejeitou o termo “platonismo” por este implicar uma ontologia demasiado específica e que não é necessária para a prática da matemática em qualquer sentido real. Ao contrário, ele defendia o uso do termo “realismo puro” para rejeitar quaisquer noções místicas de verdade.

A título de consideração final, creio ser importante esclarecer que o fato de termos considerado as escolas de pensamento acerca da filosofia da matemática separadamente não implica, contudo, que as premissas de uma excluam definitivamente as das outras. A maioria das formas de logicismo, por exemplo, envolve formas de realismo matemático. O intuicionismo, porém, é um bom exemplo de uma filosofia anti-realista da matemática. Além disso, é necessário deixar claro que neste breve esboço não me ative a todas as escolas presentes no século XX, e negligenciei notadamente as teorias que se concentram quase exclusivamente no conteúdo e processo da cognição matemática, as teorias de construtivismo e realismo social, a teoria do quasi-empiricismo, etc.

Marketing Ontológico

Sobre "On what there is" de W.V.Quine

O problema ontológico é formulável de uma forma muito
simples (O que é que há?) mas permite um desacordo
total acerca dos casos. Ou seja, a esta pergunta
podemos responder de um modo muito vago: Há tudo!; ou
podemos responder de um modo pragmático: Com que é que
uma teoria ontológica nos compromete?

Afirmar que A e B diferem ontologicamente é afirmar
que A defende que existe alguma coisa enquanto B
defende que essa coisa não existe (ex. classes;
números; mentes...)

O problema do proponente do lado negativo num
diferendo ontológivo (x não existe) é o velho enigma
platónico do não ser. Como é possível falar do que não
existe?

O enigma platónico do não ser pode levar-nos
(erradamente, segundo Quine) a reconhecer existência
em casos em que poderíamos ficar satisfeitos
reconhecendo que não há nada. (ex. ?Falamos de Pégaso,
logo Pégaso existe)

Uma hipótese acerca da existência de Pégaso é
considerar que esta é uma existência enquanto ideia e
não a existência de um particular espacio-temporal.
Para Quine essa não é uma boa solução: basta comparar
Pégaso com o Parténon. O Parténon real
espacio-temporal é diferente da ideia de Parténon.

Uma alternativa, atribuída a Wyman, é a de considerar
que Pégaso tem o seu ser como possível não realizado.
Ou seja, ao afirmar ?Pégaso não existe?, estamos
apenas a afirmar que ele não tem o atributo particular
de ser real. Wyman admite entidades possíveis, e faz
uma distinção entre Existência e Subsistência.

De acordo com a perspeciva de Wyman, aquilo que ?há?
inclui possíveis e entre esses possíveis existem os
realizados e os não realizados. Assim, devemos dizer
que coisas reais existem mas muito mais coisas
subsistem sem terem o atributo de existência.

Quine discorda da ontologia apresentada por Wyman.
Quine basicamente acredita que num universo cheio de
possíveis nem sequer é possível utilizar o conceito de
identidade, e sem este conceito o nosso pensamento é
impossível.
Faríamos melhor se simplesmente limpássemos a amálgama
de Wyman e nos livrássemos dela.

É este o principio metodológico da ontologia de Quine.
Entre a "Barba de Platão" e a "Navalha de Ockam" Quine escolhe o
minimalismo de Ockam, ou seja, a não proliferação de
teorias e entidades desnecessárias.

Quine vai buscar à Teoria das Descrições Definidas de
Russell a solução para o problema do excesso
ontológico. O mérito da solução de Russell consiste no
facto de ela evitar o compromisso com a existência de
entidades nomeadas (Pégaso, cúpula quadrada-redonda do
Berkley College...)
Russel mostrou como se pode usar nomes aparentes sem
daí se supor que existam as entidades por ele
nomeadas.

O passo de Russell para Quine é o seguinte: a carga da referência
objectiva das linguagens é transferida dos nomes ou
expressões descritivas para aquilo que os lógicos
chamam de variáveis ligadas, ou de quantificação, que
têm como análogo palavras como, algo, tudo, nada, e
que são uma parte básica da linguagem, dotadas de
sentido.

Ou seja, algo pode fazer sentido (meaningfull) e não
ter sentido (meaning). Isto é, algo pode fazer sentido
sem com isso implicar que as nossas variáveis tenham
uma realização, um sentido. Não é portanto necessária
uma referência objectiva para que um termo faça
sentido. Ao contrário do que pensa o hipotético
filósofo McX, para quem Pégaso tem de alguma forma de
existir, para que a palavra tenha sentido.

A proposta de Quine quanto a termos singulares é de
que é sempre possível uma análise à maneira de Russell
- ou seja: não é necessária uma referência objectiva
para que um termo faça sentido. O problema mais
difícil não são os termos singulares, mas os
universais, que são mais resistentes a uma explicação
nominalista.
Mesmo assim, graças a Russell já não precisamos de ser
vítimas da ilusão de que o facto de que uma frase
declarativa com um termo singular ter sentido
pressupõe uma entidade nomeada pelo termo. Não é
necessário que um termo singular nomeie para ter
sentido.

O problema dos universais é o seguinte: será que
existem entidades, tais como classes, números,
funções, relações ou atributos? Note-se que sem estas
entidades não é possível o conhecimento cientifico do
mundo natural.

Segundo a posição nominalista de Quine acerca dos universais
é possível admitir que há rosas
vermelhas, maçãs vermelhas, casas vermelhas, etc., sem
admitir que essas rosas, maçãs e casas tenham algo em
comum que subsiste por si (a vermelhidão).
Para Quine, o facto de rosas, maçãs e casas serem
vermelhas é um facto último e irredutível.

Isso poderia levar-nos a declarar que os universais
são sentidos, mas Quine pensa que os sentidos não são
uma perspectivação real da natureza. A base da recusa
quineana dos universais é precisamente a recusa dos
sentidos.

Isto não significa que Quine defenda que as palavras e
as frases não têm sentido, significa apenas que Quine
defende que não existem entidades abstractas a mais,
paralelas ao comportamento linguístico dos seres
humanos, que seriam os sentidos.

Como vimos, existe um hiato entre ter sentido e
nomear. Não é necessário que algo exista, ou seja
nomeado (objecto ou conceito abstracto) para que uma
palavra tenha sentido. O sentido de uma palavra não é
o objecto nomeado.
No exemplo de Quine, o hipotético filósofo McX insiste
em atribuir ao sentido uma certa entidade abstracta.
Quine defende que uma frase ou palavra pode ser
significativa e não ter sentido (enquanto que se
entenda por sentido uma qualquer entidade).
McX confundiu o alegado objecto nomeado Pégaso com o
sentido da palavra Pégaso, concluindo assim que Pégaso
tem que existir para que a palavra tenha sentido.

A ontologia de uma pessoa é básica relativamente ao
esquema conceptual através do qual ela interpreta
todas as experiências, mesmo as mais vulgares. (...)
Julgada noutro esquema conceptual, uma frase
declarativa que é axiomática para o espírito de alguém
que se inscreva nessa ontologia (há o universal
vermelhidão) pode, com igual imediatez e trivialidade,
ser declarado como falso.


Os argumentos de Quine, até ao momento, foram:

1) Como demonstrou Bertrand Russell na sua Teoria das
Descrições Definidas, os termos singulares podem ter
significado (no sentido de serem significantes e não
no sentido de possuírem eles mesmos um significado)
sem se pressupor que existam as entidades que esses
termos têm o propósito de nomear.
2) Podemos usar termos gerais, sem ser preciso admitir
que eles sejam nomes de entidades abstractas
(universais).
3) Aquilo que normalmente se chama ?dar sentido a uma
elocução? consiste simplesmente em empregar um
sinónimo. Ou seja, não é necessário aceitarmos um
domínio de entidades chamadas sentidos.

O problema dos universais (de nos comprometermos ou
não nos comprometermos ontologicamente com as
entidades abstractas que são os universais) é
ultrapassado se na nossa teoria ontológica escolhermos
comprometermo-nos com entidades (rosas vermelhas,
maçãs vermelhas, casas vermelhas) mas não
necessáriamente com entidades abstractas como a
" vermelhidão".

O problema dos universais é ultrapassado quando
escolhemos uma ontologia de entidades abstractas. Ou
seja, consideramos que quando nos referimos a
entidades abstractas, fazemo-lo porque essa é
simplesmente a nossa maneira de falar.

Uma teoria está comprometida com uma ontologia quando
as variáveis dessa teoria se referem às entidades
ontológicas de um modo tal que as afirmações feitas
nessa teoria sejam verdadeiras. Muitos problemas
filosóficos surgem devido a confusões acerca de qual o
domínio de entidades às quais se deve permitir que as
teorias se refiram.

Os medievais tiveram três abordagens ao problema dos
universais: a realista, a conceptualista e a
nominalista.
Abordagens que correspondem na filosofia do sec. XX,
respectivamente à abordagem logicista, intuicionista e
formalista.

O realismo é a doutrina dos universais platónicos
(entidades abstractas que subsistem independentemente
da consciência). Doutrina a que no sec. XX corresponde
o Logicismo de Frege, Russell e Carnap.

O conceptualismo, da mesma forma que o intuicionismo
actual, defende que há universais, mas que esses
universais são produtos da nossa consciência.

Os formalistas, como os antigos nominalistas, objectam
de todo a admissão de entidades abstractas, mesmo que
produzidas pela consciência.

Ou seja, o género de ontologia que se adopta
(realismo, conceptualismo, nominalismo, logicismo,
intuicionismo, formalismo...) tem consequências nas
teorias que caem debaixo do seu manto ontológico.

Mas como é que se pode decidir entre ontologias
rivais?

Quando olhamos para uma teoria, que actua dentro de
determinada ontologia, não procuramos saber o que é
que há. Procuramos, antes, saber o que é que essa
ontologia diz que há. Mas o que é que há é outra questão.

A discussão acerca do que há deve ser tratada, antes
de mais, ao nível semântico, pois uma vez que eu adira
à minha ontologia não posso autorizar que as minhas
teorias se refiram a entidades que pertençam a outra
ontologia e não há minha. Posso no entanto discutir o
desacordo entre duas ontologias.

Apesar de alguns desacordos básicos entre ontologias,
há por vezes pontos de convergência em níveis mais
superiores que possibilitam o diálogo. Enquanto for
possível esclarecer linguisticamente ambas as posições
ontológicas, o diálogo é desejável.

Como tal, uma controvérsia ontológica deve tender para
uma controvérsia acerca da linguagem.

O que não quer dizer que o que há dependa de palavras,
mas apenas que o que há é traduzível linguisticamente.


Então o que é que há?
Há aquilo que nos convém - em termos de simplicidade e
operacionalidade - que haja.

Segundo Quine adoptamos uma ontologia da
mesma forma que adoptamos uma teoria cientifica.
Adoptamos o esquema conceptual mais simples no qual os
fragmentos desordenados da experiência em estado bruto
possam ser ajustados e ordenados.

Quine chama a este método de adoptar uma ontologia, a
regra da simplicidade.
A regra da simplicidade é, segundo Quine, a nossa
máxima condutora ao fazermos corresponder dados
sensíveis e objectos.

A seguir Quine apresenta-nos dois esquemas conceptuais
(duas ontologias, portanto) distintas: o fisicalismo e
o fenomenalismo.

Qual dos dois deve permanecer?
Cada um tem, à sua maneira, a sua simplicidade
específica.
Um é epistemologicamente fundamental (fenomenalismo)
enquanto que o outro é fisicamente fundamental
(fisicalismo).

O fisicalismo é a tese de que o mundo real nada mais é
que o mundo físico, como tal, simplifica a nossa
explicação da experiência associando os inúmeros
acontecimentos sensoriais a objectos únicos.
O fisicalismo contemporâneo considera que a física é o
questionário básico (o mais básico) acerca da
natureza. Como tal a ontologia tem de se virar para a
física.

O fenomenalismo desenvolve a ideia segundo a qual os
objectos são as possibilidades permanentes da
percepção, e como tal não é de todo provável que cada
frase acerca de objectos físicos possa ser traduzida
na linguagem fenomenalista.

Os objectos físicos unificam e simplificam a nossa
explicação do fluxo da experiência.

Quine procurou mostrar que alguns argumentos a favor
de algumas ontologias são falaciosos. Além disso
propôs um padrão explícito por meio do qual
se decide quais os compromissos ontológicos de uma
teoria.
No entanto, a questão acerca da ontologia que se deve
adoptar permanece em aberto. Devemos manter, quanto a
esta questão, um espírito crítico, tolerante e
experimental.

É no entanto, diz-nos Quine, uma exigência natural
seguir com a física. O que há, defende Quine, deve ser
procurado pela física.

Por outro lado, para aqueles que decidiram adoptar um
ponto de vista fenomenalista, que exige prioridade
epistemológica, as ontologias fisicalistas não passam
de mitos.

Todavia a qualidade do mito é relativa. Neste caso,
relativa ao ponto de vista epistemológico, que é
apenas um entre muitos, e ao qual corresponde um entre
muitos dos nossos interesses e objectivos.

http://web.letras.up.pt/smiguens/mlag/members/Tom_/Quine_3.htm

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A Bolha da Arte Contemporânea

ENFRENTANDO O VAZIO

POR IVAN HEGENBERG

O vazio da Bienal, podemos dizer, é o vazio do interior de uma bolha. Uma bolha que se agigantou no afã de abarcar tudo, de se infiltrar em todo tipo de ação humana. Da mesma maneira que o mercado financeiro entrou em crise pelos excessos neoliberais, a bolha na arte se mostra prestes a estourar devido a um semelhante laissez-faire. É possível prever que uma crise vá influir na outra, que os preços dos leilões de arte se tornem mais modestos e que os colecionadores pensem melhor antes de patrocinar qualquer capricho. Porém, se refletirmos apenas sobre os aspectos econômicos, a arte continuará a ser mero jogo da elite, flutuando de acordo com a demanda. A tal ponto o problema é complicado que ainda parece incerto se a intenção de Rafael Augustaitiz, ex-estudante de arte que invadiu o pavilhão com quarenta pichadores, seria o de pertencer ao interior da bolha, ou se ele já procura perfurar a membrana e forçar a explosão. Desde os anos 60, quem queira entrar para o alto circuito de arte dificilmente se arrisca a pintar uma tela, podendo ser mais vantajoso, até mesmo financeiramente, realizar uma ação radical do que batalhar com as tintas. A principal diferença entre a arte moderna e a arte que se designa pós-moderna é que a segunda se preocupa diretamente com o campo expandido, desprezando o campo metafórico que as cores propiciam em uma tela. Até mesmo uma pintura abstrata é considerada ilusória demais para o pensamento que hoje domina, pois as cores criam tensões e variações de profundidade que vão além da mera materialidade. A ilusão passou a ser considerada reacionária, algo que merece ser destruído – assim como se deve destruir qualquer fronteira entre o espaço da vida e o da arte. Explica-se assim o porquê de não haver uma única pintura nessa edição da Bienal, onde a destruição da arte acontece mesmo sem a intervenção de pichadores.

Ironicamente, se a pintura não pode mais ser arte, qualquer anúncio de que não é arte nada do que costumamos chamar de arte pode ser considerada uma obra avançada. É o que vemos, por exemplo, em uma instalação onde falsificações de dezenas de obras consagradas se amontoam ao lado de seus pedidos por escrito, sugerindo que seja falso até mesmo o desejo de se ver uma pintura significativa. É na constante frustração de desejos como esse que muitos dos artistas selecionados se engajam. Ao lado dessa beligerante instalação, vemos um enorme painel com o livro O estrangeiro, de Camus, onde todas as suas palavras são recortadas e dispostas em ordem alfabética. Em entrevista, a artista diz ter escolhido o livro por apreciá-lo, mas não é difícil perceber o quanto há de inveja nessa dissecação e ordenação – na aniquilação ou controle de uma fruição que seria bem mais potente com o livro em sua integridade. Em vez de um livro dilacerante, temos um livro dilacerado, muito aquém do que poderia provocar no leitor.

Do outro lado do pavilhão – começamos pelo último andar da exposição – temos duas das poucas obras que apostam na ilusão. O vídeo de Eija Liisa-Ahtila, que aborda a loucura com uma estranha suavidade, e as instigantes gravuras de Leya Mira Brander, cujo discurso sustenta um otimismo em relação à imagem que quase não se ouve mais. Para quem compreende que obras como essas, ainda que não se valham do mesmo poder retórico, são mais complexas do que a produção tipicamente contemporânea, a proposta de “morte da arte” só pode soar rancorosa. A diplomacia costuma reinar tanto na disposição do espaço quanto nas conversas de vernissage, porém por trás das aparências a briga é feia: os pós-modernos insistem no boicote ao espaço ilusório, ao passo que, contra a corrente, alguns poucos conseguem demonstrar que isso não é possível nem vantajoso. O caráter panorâmico de toda grande coletiva faz com que coabitem o mesmo espaço os rivais que se ameaçam de morte. Vazio é quem acredita que esse conflito não acarreta abalos ainda maiores. Nesse contexto, o ataque de Rafael e seu grupo Pichação, consideremo-los artistas ou vândalos, demonstram muito claramente a tensão que está em jogo.

Desçamos do andar superior para o primeiro piso. Caminhando pela arquitetura modernista de Niemeyer, avistamos o vazio e prosseguimos. Vamos nos lembrando que, desde o urinol de Duchamp, qualquer objeto, situação, informação ou sugestão que se insira em um espaço artístico, pode ser considerado arte. Seja um cachorro doente, seja um aperto de mão, seja um anúncio publicitário, uma aula de geopolítica ou a oferta de um copo d’água. É importante esclarecer que, na maior parte das vezes pueris, esses procedimentos não fazem jus ao legado de Duchamp. O artista francês disse com todas as letras que deveria restringir esses deslocamentos a um número muito reduzido – não tendo ele realizado mais do que vinte ao longo de décadas – pois do Parker Foto: Amilcar Parker contrário perderiam o sentido. Desrespeitando o próprio inventor do jogo, muitos dos artistas selecionados levam o truque ao extremo – não é tão difícil uma vez que se aprende – com consequências as mais elitistas.

Há jornalistas cobrindo a Bienal, parte deles contratados para publicação interna. No entanto, há artistas fazendo o mesmo trabalho, sendo o único diferencial o status de sua profissão. A cobertura dos artistas poderia ter a mesma qualidade, o mesmo conteúdo e o mesmo foco que o trabalho dos jornalistas – não é o que vai impresso que os diferencia, assim como a caixa de sabão em pó de Andy Warhol era idêntica a das estantes dos supermercados. O Brillo Box de Warhol exauria-se em si mesmo, mas o procedimento não mudou tanto dos anos 60 para cá. Próxima às catracas da entrada, avistamos uma antiga impressora, trabalhando ruidosamente. A máquina é bonita, antiga, mas não é ela a obra. A proposta do artista é recolher perguntas e respostas de qualquer assunto levantado pelos visitantes e reunir em livretos que são distribuídos aos participantes. Basta ler algumas linhas para se perceber que não há qualquer avanço em relação à Wikipédia. Na verdade, há um recuo, pois a Wikipédia é mais dinâmica, tem acesso mais amplo e não faz de seu idealizador um novo “artista”. A impressora da instalação, por antiga que seja, funciona bem, é o pensamento que está obsoleto: uma obra espaçosa demais, que não reconhece as possibilidades de nosso tempo. A lógica do deslocamento se alia a um discurso que prega o fim de qualquer separação entre vida e arte – seria essa a proclamada “morte da arte”. Em vez de se produzir campos ilusionistas, passar-se-ia a olhar para a vida como se essa fosse uma obra artística. É por isso que um pichador com quatro anos de estudos na Faculdade de Belas Artes sente que sua transgressão deveria ser reconhecida pelos críticos e historiadores como obra de vanguarda. Se de fato não houver a menor distância entre espaços da vida e da arte, teremos que reconhecer que a ousadia de Rafael pode ser admirada com maior profundidade do que admiraríamos uma tela de Matisse. A mentalidade pós-moderna entende que uma pintura é apenas um objeto plano preenchido com tinta, podendo ser mais honroso para um artista subir e descer de um banquinho em uma performance assumidamente narcisista do que criar um objeto. Sendo assim, como dizer que os movimentos dos pichadores invadindo o prédio, dominando os muros e se desviando da polícia em rota de fuga não tenham sido um balé a se apreciar esteticamente? Por que Vito Acconci sim e Rafael Augustaitiz não? Apenas por que Rafael é contra a lei? Se contarmos com esse argumento, a censura determinará o que é arte muito antes de qualquer reflexão. Melhor seria questionar se a arte tem mesmo se aproximado da realidade, ou se a figura do artista não tem sido a de um demagogo com privilégios especiais. Há pessoas que não precisaram de muito mais que visitar algumas ONGs em São Paulo e anotar o trajeto em um mapa da cidade para participarem oficialmente da Bienal. O que elas fizeram que as tornam exemplos tão mais destacados do que os funcionários dessas mesmas ONGs, que não serão considerados artistas?

Dentro do paradigma que se formou na arte contemporânea, o pior assistente social pode, desde que capte o tom do discurso e aperte as mãos certas, ser considerado um artista de respeito. Também um militante mais subversivo, que enfrente o sistema e desafie a polícia, pode, se souber imitar a pose certa, ser aclamado como artista radical. O mesmo vale para jornalistas, cozinheiros, decoradores, etc. Um dos muitos problemas que esse paradigma gera é que jamais temos uma verdadeira fusão entre arte e vida, a despeito do que se proclama. Um crítico importante, porém pouco lembrado, Harold Rosenberg, cansou de demonstrar que não é possível a fusão com a vida em qualquer contexto de arte. Nesses casos, o que se passa é sempre deslocamento, jamais integração. Para Rosenberg, os estudantes da Sorbonne de 68 uniram vida e arte, fizeram da política uma dança, mas somente porque a tessitura era a da vida. Estavam do lado de fora da bolha. Ele considera também que é pouco provável que se possa ser libertário na vida sem qualquer repertório de arte ilusionista, com a imaginação sempre presa à realidade, limitada à concretude. Tendo em vista um cenário amplo, só temos a lamentar que a arte venha cooptando manifestações marginais que pouco dizem respeito a suas particularidades. Tanto a arte como a vida perdem, pois ambas se artificializam: o rótulo se fazendo valer mais do que seu caráter.

Duchamp estava certo ao considerar que os deslocamentos deveriam ser limitados. Hugo Ball, fundador do dadaísmo, também entendia que “transformar o dadá em uma tendência artística é problema na certa.” Guy Debord percebeu que teria de abandonar o status de artista para atingir a realidade em cheio. Lygia Clark, preocupando-se mais com a cura do que com a performance, deixou de querer ser vista como artista ao se aprofundar na psicanálise. Aqueles que buscaram ir até o limite da equação arte-vida perceberam que há uma linha a partir da qual uma ação já não deve mais ser considerada arte. Não porque seja menos interessante do que a arte, mas porque seria falseamento vê-la como tal. Essa linha não é tão facilmente visível, é como a superfície de uma bolha. Fazendo- a inchar, cedo ou tarde ela explode. Não há como levar o mundo todo para seu interior. Nem há motivos para isso, pois há coisas que se tornam mais pungentes quando em outras esferas. O que não se pode é tomar uma bolha, devido ao formato esférico, pelo planeta, pois a arte não é maior que a vida.

Unesco inaugura oficialmente a Biblioteca Digital Mundial

Agência AFP

PARIS - A Biblioteca Digital Mundial (BDM) - um portal gratuito no endereço www.wdl.org, que oferece uma seleção de documentos procedentes das grandes bibliotecas internacionais - foi inaugurada oficialmente nesta terça-feira na sede da Unesco em Paris.

A BDM oferece opções de pesquisa e navegação na internet em sete idiomas - inglês, árabe, chinês, espanhol, francês, português e russo -e apresenta conteúdos em mais de 40 idiomas.
A biblioteca foi desenvolvida por uma equipe da Biblioteca do Congresso Americano, com suporte técnico da Biblioteca de Alexandria, no Egito.

O lançamento aconteceu na sede parisiense da Unesco, na presença de seu diretor-geral Koichiro Matsuura, e de James H. Billington, diretor da Biblioteca do Congresso americano.

Em 2005, a Biblioteca do Congreso propôs a organização de uma BDM para oferecer gratuitamente uma ampla gama de livros, mapas, filmes e gravações oriundas de bibliotecas nacionais.

O projeto, no qual participam a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e outras 32 instituições associadas, foi desenvolvido por uma equipe da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e participam nele instituições da Arábia Saudita, Brasil, Egito, China, Estados Unidos, Rússia, França, Iraque, Israel, Japão, Grã-Bretanha, México e África do Sul, entre outros países.

Sem esquecer a contribuição de Estados como o Marrocos, Uganda, Qatar, México e Eslováquia.


JB 08:38 - 21/04/2009

terça-feira, 21 de abril de 2009

D'accord

Um pouquinho de Waking Life, de Linklater.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Ninando o Guri

O filho quer dormir e pede ao pai (engenheiro) para contar uma história e ele conta a dos três Porquinhos.

Meu Filho, era uma vez três porquinhos (P1, P2 e P3) e um Lobo Mau, por definição, LM, que vivia os atormentando.

P1 era sabido e fazia Engenharia Civil e já era formado em Engenharia Mecânica.

P2 era arquiteto e vivia em fúteis devaneios estéticos absolutamente desprovidos de cálculos rigorosos.

P3 fazia Comunicação e Expressão Visual na ECA.

LM, na Escala Oficial da ABNT, para medição da Maldade (EOMM) era considerado Mau nível 8,75 (arredondando a partir da 3ª casa decimal para cima). LM também era um mega investidor imobiliário sem escrúpulos e cobiçava a propriedade que pertencia aos Pn (onde 'n' é um número natural e varia entre 1 e 3), visto que o terreno era de boa conformidade geológica e configuração topográfica, localizado próximo a Granja Viana.

Mas nesse promissor perímetro P1 construiu uma casa de tijolos, sensata e logicamente planejada, toda protegida e com mecanismos automáticos.. .

Já P2 montou uma casa de blocos articulados feitos de mogno que mais parecia um castelo lego tresloucado.

Enquanto P3 planejou no Autocad e montou ele mesmo, com barbantes e isopor como fundamentos, uma cabana de palha com teto solar, e achava aquilo 'o máximo'.

Um dia, LM foi ate a propriedade dos suínos e disse, encontrando P3:

- 'Uahahhahaha, corra, P3, porque vou gritar, e vou gritar e chamar o Conselho de Engenharia Civil para denunciar sua casa de palha projetada por um formando em Comunicação e Expressão Visual!'

Ao que P3 correu para sua amada cabana, mas quando chegou lá os fiscais do CREA já haviam posto tudo abaixo. Então P3 correu para a casa de P2.

Mas quando chegou lá, encontrou LM à porta, batendo com força e gritando:

- 'Abra essa porta, P2, ou vou gritar, gritar e gritar e chamar o Greenpeace, para denunciar que você usou madeira nobre de áreas não-reflorestadas e areia de praia para misturar no cimento.

Antes que P2 alcançasse a porta, esta foi posta a baixo por uma multidão ensandecida de ecos-chatos que invadiram o ambiente, vandalizaram tudo e ocuparam os destroços, pixando e entoando palavras de ordem.

Ao que segue P3 e P2 correm para a casa de P1.Quando chegaram na casa de P1, este os recebe, e os dois caem ofegantes na sala de entrada.

P1: O que houve?

P2: LM, lobo mau por definição, nível 8.75, destruiu nossas casas e desapropriou os terrenos.

P3: Não temos para onde ir. E agora, que eu farei? Sou apenas um formando em Comunicação e Expressão Visual!

Tum-tum-tum- tum-tuuummm! !!! (isto é somente uma simulação de batidas à porta, meu filho! o som correto não é esse.)

LM: P1, abra essa porta e assine este contrato de transferência de posse de imóvel, ou eu vou gritar e gritar e chamar os fiscais do Conselho Regional de Engenharia em cima de você!!!, e se for preciso até a turma do Meio Ambiente e aquele tal de CONFEA.Como P1 não abria (apesar da insistência covarde do porco arquiteto e do...do... comunicador e expressivo visual) LM chamou os fiscais, e estes fizeram testes de robustez do projeto, inspeções sanitárias, projeções geomorfológicas, exames de agentes físico-estressores, cálculos com muitas integrais, matrizes, e geometria analítica avançada, e nada acharam de errado. Então LM gritou e gritou pela segunda vez, e veio o Greenpeace, mas todo o projeto e implementação da casa de P1 era ecologicamente correta.

Cansado e esbaforido, o vilão lupino resolveu agir de forma irracional (porém super comum nos contos de fada): ele pessoalmente escalou a casa de P1 pela parede, subiu ate a chaminé e resolveu entrar por esta, para invadir.

Mas quando ele pulou para dentro da chaminé, um dispositivo mecatrônico instalado por P1 captou sua presença por um sensor térmico e ativou uma catapulta que impulsionou com uma força de 33.300 N (Newtons) LM para cima com uma inclinação de 32,3° em relação ao solo.

Este subiu aos céus, numa trajetória parabólica estreita, alcançando o ápice, onde sua velocidade chegou a zero, a 200 metros do chão.

Agora, meu filho, antes que você pegue num repousar gostoso e o papai te cubra com este edredom macio e quente, admitindo que a gravidade vale 9,8 m/s² e que um lobo adulto médio pese 60 kg, calcule:

a) o deslocamento no eixo 'x', tomando como referencial a chaminé.

b) a velocidade de queda de LM quando este tocou o chão (considere o atrito pela viscosidade do ar)..

- Já calculou ????

- Então durma...

"Não basta conquistar a sabedoria, é preciso usá-la."

Tabela de Graduação de Machos

1 - Esportes

a.. Artes marciais, tiro, arco e flecha > ESPARTANO
a.. Futebol, automobilismo, Tênis > 1/2 HOMEM
b.. Squash , boliche, voleibol > TENDÊNCIAS GAYS
c.. Aeróbica, spinning > GAY
d.. Patinação no Gelo, Ginástica Olímpica > BICHONA
e.. Os mesmos anteriores, usando short de lycra > LOUCA

2 - Comidas

a.. Capivara, javali, comida muito apimentada > CONAN
b.. Churrasco, Massas, Frituras > MACHO
c.. Peixe e salada > FRESCO
d.. Sanduíches integrais > GAY
e.. Aves acompanhadas de vegetais cozidos no vapor > BICHA ASSUMIDA

3 - Bebidas

a.. Cachaça, cerveja, whisky > MACHO
b.. Vinho, vodka > HOMEM
c.. Caipifruta > GAY
d.. Suco de frutas normais e licores doces > MUITO GAY
e.. Suco de açaí, carambola, cupuaçu, com adoçante > PERDIDAMENTE GAY

4 - Higiene

a.. Toma banho rápido, usa sabão em barra > LEGIONÁRIO
b.. Toma banho rápido, usa xampu e esquece das orelhas ou do pescoço > MACHO
c.. Toma banho sem pressa, curte a água e toca umazinha > HOMEM
d.. Demora mais de meia hora e usa sabonete líquido > TENDÊNCIAS GAYS SÉRIAS
e.. Toma banho com sais e espuma na banheira > VIADAÇO ASSUMIDO

5 - Cerveja

a.. Gelada e em grandes quantidades > MACHO
b.. Só cervejas extra, premium e importadas > HOMEM FINO DEMAIS
c.. Só uma às vezes para matar a sede > BICHICE SOB CONTROLE
d.. Com limão e guardanapo em volta do copo > BICHA
e.. Sem álcool > GAZELA SALTITANTE

6 - Presentes que gosta de ganhar

a.. Ferramentas > OGRO
b.. Garrafa de whisky > MACHO
c.. Eletrônicos, informática > HOMEM MODERNO
d.. Roupas > VIADO
e.. Flores, velas aromáticas, perfumes, bombons > DONZELA VIRGEM

7 - Cremes

a.. Só pasta de dentes > MACHO
b.. Protetor solar só na praia e piscina > HOMEM MODERNO
c.. Usa cremes no verão > BICHA FRESCA
d.. Usa cremes o ano todo > BICHONA TOTAL
e.. Não vive sem hidratante > FILA DE ESPERA DA OPERAÇÃO PRA TROCA DE SEXO

8 - Animais de estimação

a.. Animal de quê? > MACHO
b.. Tem um vira-lata que come restos da comida > HOMEM
C.. Tem cão de raça que vive dentro de casa e come ração especial > BICHA
c.. O cão de raça dorme na sua própria cama > BICHONA TOTAL
e.. Prefere gatos > TOTALMENTE PASSIVA

9 - Plantas

a.. Nem pra comer > TROGLODITA
b.. Come algumas de vez em quando > RAMBO
c.. Tem umas no quintal, nem são regadas > HOMEM
d.. Tem plantinhas na varanda do apartamento > VIADO
e.. Rega, poda e conversa com as flores do jardim > BICHONA PERDIDA

10 - Espelho

a.. Não usa > VIKING
b.. Usa para fazer barba > MACHO
c.. Admira sua pele e observa seus músculos > GAY
d.. Idem c, e ainda analisa a bunda > LOUCA
e.. Admira-se com diferentes camisas e penteados > TRAVECO

11 - Penteado

a.. Não se penteia > MACHO
b.. Só se penteia pra sair à noite > HOMEM
c.. Se penteia várias vezes ao dia > FRESCO
d.. Usa gel > BICHONA TOTAL
e.. Dá conselhos de penteados > BICHAÇA LOUCA

12 - Limpeza da casa

a.. Varre quando a sujeira estala na sola do pé > ANIMAL
b.. Varre quando o pó cobre o chão > MACHO
c.. Varre uma vez por semana > FRESCO
d.. Limpa com água, detergente e aromatizante > GAYZAÇO
e.. Usa espanador de pó e tem um avental > É A ESPOSA DO ESPANADOR

13 - Filmes

a.. Sexta-feira 13, A Hora do Pesadelo, Brinquedo Assassino, Jogos Mortais,Laranja Mecânica, Pânico > MAD MAX
b.. Indiana Jones; filmes de Charles Bronson, Chuck Norris e Bruce Lee, > MACHO
c.. Os Trapalhões, Loucademia de Polícia, Um Tira da Pesada > FRESCO
d.. Forrest Gump, A Lagoa Azul; filmes de Richard Gere, Leonardo di Caprio e Julia Roberts > BICHONA
e.. Super Xuxa contra o Baixo-Astral, Eliana e o Segredo dos Golfinhos > GAZELAÇA
f.. O Segredo de Broke Back Mountain > NO COMENTS

Epopéia Paleolítica

Weird Fishes/Arpeggi - Radiohead in Japan 2008

A cenografia foi a mesma do show na Apoteose.

domingo, 19 de abril de 2009

quinta-feira, 16 de abril de 2009

História

"History is the present. That's why every generation writes it anew. But what most people think of as history is its end product, myth."

E.L. Doctorow

Niilismo

Eu quase escrevi um texto que seria até interessante, sobre o Monty Python, Nietzche e o Niilismo. Ia sair uma salada, e o que me levou a pensar a escrevê-lo foi talvez pra desenvolver um lado que me disseram ontem: -Felipe, acho que você é dadá. Coisa de dadaísmo, uma liberdade atribuída a um movimento de uma galera de Zurich, que dizem depois levou ao Surrealismo. Coisas de Ready Made, linguística, fenomenologia e non-sense (apesar de que pra mim non-sense é burrice de quem assim o diz). Eis dadá. E como eu realmente dedico pesquisa à fenomenologia, a idéia do artigo seria um investimento em uma carreira, talvez, mas desenvolvendo um lado jornalístico, já que virão novidades em um movimento TAZ na universidade.

Já que o texto ficou só na idéia, em detrimento de outros assuntos mais urgentes, pelo menos a definição de niilismo que por ventura seria usada alguma vez fica de decalque:

Niilismo é a "falta de sentimentos baseada na análise racional". (Wikipedia)

Ni!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Tem? Trend!

Em 1982, John Nasbit lança seu mega influenciante livro chamado Megatrends, coisa de futurólogo, e que talvez em uma cadeia de profecia auto-realizante pela influência que o conceito e o marketing obtiveram, acertou em praticamente todas as previsões, baseadas em algo que à época soava estranho, mas que hoje se ouve falar em rodinhas de "retardados" querendo dar uma de sabichões...-"Ah, é a Economia da Informação", "Gestão da Informação", "A Velocidade aumentou em X vezes na última década", "Idade do Petabyte" e essas outras coisas. Pois é, Nasbit falava isso pro grande público em 1982, antes do PC. Claro que já existia uma galerinha lá em Stanford, Berkeley, até no MIT, apesar do foco diferente, mexendo com silício pra diminuir os brutamontes barulhentos com seus transistores de válvula. Jim Clark já estava fundando a Silicon Graphics, que revolucionou a computação gráfica em 3D, neste mesmo ano. 3D com binários!

É, Nasbit era um homem de "marquetim", provavelmente, e lançou moda. E eis que surge um novo livro, Megatrends 2010, de uma pensadora da nova era unindo espiritualidade, moral, ecologia e capitalismo, quando a economia vai se redescobrindo em novas ordens com mais velocidade e sutileza na meditação do caos.

É meio esotérico, mas quem é iniciado no assunto irá dar umas mugidas.

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Megatrends 2010: The New List

Here is my new list of megatrends, each of which serves as one of this book’s chapters.

The Power of Spirituality. In turbulent times, we look within; 78 percent seek more Spirit. Meditation and yoga soar. Divine Presence spills into business. “Spiritual” CEOs as well as senior executives from Redken and Hewlett-Packard (HP) transform their companies.

The Dawn of Conscious Capitalism. Top companies and leading CEOs are re-inventing free enterprise to honor stakeholders and shareholders. Will it make the world a better place? Yes. Will it earn more money? That’s the surprising part: Study after study shows the corporate good guys rack up great profits.

Leading from the Middle. The charismatic, overpaid CEO is fading fast. Experts now say “ordinary” managers, like HP’s Barbara Waugh, forge lasting change. How do they do it? Values, influence, moral authority.

Spirituality in Business is springing up all over. Half speak of faith at work. Eileen Fisher, Medtronic win “Spirit at Work” awards. Ford, Intel and other firms sponsor employee-based religious networks. Each month San Francisco’s Chamber of Commerce sponsors a “spiritual” brown bag lunch.

The Values-Driven Consumer. Conscious Consumers, who’ve fled the mass market, are a multi-billion-dollar “niche.” Whether buying hybrid cars, green building supplies or organic food, they vote with their values. So, brands that embody positive values will attract them.

The Wave of Conscious Solutions. Coming to a firm near you: Vision Quest. Meditation. Forgiveness Training. HeartMath. They sound touchy-feely, but conscious business pioneers are tracking results that will blow your socks off.

The Socially Responsible Investment Boom. Today’s stock portfolios are green in more ways than one. Where should you invest? This chapter charts the “social” investment trend and helps you weigh your options.

In this book’s conclusion, The Spiritual Transformation of Capitalism, we explore the underlying values of capitalism. I shall attempt to dispel what I believe is the absurd notion that free enterprise is rooted in greed. Conscious Capitalism isn’t altruism, either; it relies instead on the wisdom of enlightened self-interest.

Vou fazer um slide show para você

Está preparado?

É comum, você já viu essas imagens antes.
Quem sabe até já se acostumou com elas.
Começa com aquelas crianças famintas da África.
Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele.
Aquelas com moscas nos olhos.

Os slides se sucedem.

Êxodos de populações inteiras.
Gente faminta.
Gente pobre.
Gente sem futuro.

Durante décadas, vimos essas imagens.

No Discovery Chanel, na National Geographic, nos concursos de foto.
Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados.
São imagens de miséria que comovem.
São imagens que criam plataformas de governo.
Criam ONGs.
Criam entidades.
Criam movimentos sociais.

A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá sensibiliza.
Ano após ano, discutiu-se o que fazer.
Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta.

Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo.

Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta.
Não sei como calcularam este número.
Mas digamos que esteja subestimado.
Digamos que seja o dobro.
Ou o triplo.
Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.

Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse.
Não houve documentário, ONG, lobby ou pressão que resolvesse.

Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia. Bancos e investidores.

Como uma pessoa comentou, é uma pena que esse texto só esteja em blogs e não na mídia de massa, essa mesma que sabe muito bem dar tapa e afagar.

Se quiser, repasse, se não, o que importa?

O nosso almoço ta garantido mesmo...


http://falabrasil.ning.com/

;(

sexta-feira, 10 de abril de 2009

sábado, 4 de abril de 2009

Cao(s)ma

Entre o caos e a ordem

Pesquisadores descobriram novas evidências de que o cérebro humano vive "no limite do caos", em um ponto crítico entre a aleatoriedade e a ordem.

O estudo, publicado no jornal acadêmico PLoS Computational Biology, fornece dados experimentais sobre uma ideia até agora repleta de especulações teóricas.

O ponto crítico da auto-organização - onde os sistemas organizam-se espontaneamente para operar em um ponto crítico entre a ordem e a aleatoriedade - pode emergir a partir de complexas interações em muitos sistemas físicos diferentes, incluindo avalanches, fogos em florestas, terremotos e ritmos cardíacos.

De acordo com o presente estudo, feito por uma equipe da Universidade de Cambridge, a dinâmica das redes do cérebro humano tem importantes elementos em comum com alguns sistemas aparentemente muito diferentes na natureza.

Estado crítico auto-organizado

Os pesquisadores utilizaram técnicas de imageamento cerebral de última geração para medir alterações dinâmicas na sincronização de atividades entre diferentes regiões da rede funcional do cérebro humano.

Seus resultados sugerem que o cérebro opera em um estado crítico auto-organizado. Para sustentar essa conclusão, eles também estudaram a sincronização de atividades em modelos computacionais e demonstraram que o perfil dinâmico que eles encontraram no cérebro é expresso de forma exata em seus modelos.

Os resultados do imageamento cerebral, em conjunto com suas simulações, fornecem fortes evidências em favor da ideia de que a dinâmica do cérebro humano situa-se em um ponto crítico entre a ordem e o caos.

Memória e processamento

Redes computacionais que apresentam essas características também apresentam capacidades ótimas de memória (armazenamento de dados) e processamento de informações. Em particular, sistemas críticos são capazes de responder muito rapidamente e de forma ampla a pequenas variações em seus inputs.

"Devido a essas características, a criticalidade auto-organizada é intuitivamente atrativa como um modelo para a funções cerebrais, como a percepção e a ação, porque isto nos permite alternar rapidamente entre estados mentais a fim de responder a condições ambientais variáveis," diz o professor Manfred Kitzbichler.

Ponto de partida

Segundo Kitzbichler, esta nova evidência é apenas um ponto de partida. "Uma questão natural que nós pretendemos estudar no prosseguimento da pesquisa será: Como a medição da dinâmica crítica se relaciona com o desempenho cognitivo de desordens neuropsiquiátricas e seus tratamentos?"

do Diário da Saúde

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Inteligir

Tropicalismo, Antropofagia, Mito, Ideograma
Glauber Rocha
Extraído de Revolução do Cinema Novo. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981


Consideramos como início de uma revolução cultural no Brasil o 1922. Naquele ano existiu forte movimento cultural de reação à cultura acadêmica e oficial. Deste período o expoente principal foi Oswald de Andrade. Seu trabalho cultural, sua obra, que é verdadeiramente genial, ele definiu como antropofágica, referindo-se à tradição dos índios canibais. Como esses comiam os homens brancos, assim ele dizia de haver comido toda a cultura brasileira e aquela colonial. Morreu com pouquíssimos textos publicados.

José Celso Martinez, que dirige o grupo Teatro Oficina, o mais importante grupo de vanguarda teatral, descobriu o texto do Rei da Vela, e montou o espetáculo. Foi uma verdadeira revolução: a antropofagia
(ou o Tropicalismo, também chamado assim) apresentada pela primeira vez ao público brasileiro provocou grande abertura cultural em todos setores.

O Tropicalismo, a antropofagia e seu desenvolvimento são a coisa mais importante hoje na cultura brasileira.

A história do Brasil é pequena, reduzida. Temos uma tradição nacional-fascista, que depois se transformou em nacional-democrática, mas quando o país descobriu o subdesenvolvimento, o nacionalismo utópico entrou em crise e caiu. Primeiro se descobriu, sem bem que em forma bastante esquemática, por que
no Brasil as Ciências Sociais são primitivas, o subdesenvolvimento econômico; depois veio a descoberta
de que o subdesenvolvimento era integral.

O cinema brasileiro partiu da constatação desta totalidade, de seu conhecimento e da consciência da necessidade de superá-la de maneira também total, em sentido estético, filosófico, econômico: superar
o subdesenvolvimento com os meios do subdesenvolvimento. O Tropicalismo, a descoberta antropofágica, foi uma revelação: provocou consciência, uma atitude diante da cultura colonial que não é uma rejeição
à cultura ocidental como era no início (e era loucura, porque não temos uma metodologia): aceitamos
a ricezione integral, a ingestão dos métodos fundamentais de uma cultura completa e complexa, mas também a transformação mediante os nostros succhi e através da utilização e elaboração da política correta. É a partir deste momento que nasce uma procura estética nova, e é um fato recente.

Agora, “Tropicalismo” é um nome que não significa nada, como “Cinema Novo”. Aquilo que é significante
é o apporto dos artistas nesta direção.

Tropicalismo é aceitação, ascensão do subdesenvolvimento; por isto existe um cinema antes e depois
do Tropicalismo. Agora nós não temos mais medo de afrontar a realidade brasileira, a nossa realidade,
em todos os sentidos e a todas as profundidades. Eis por que em Antônio das Mortes existe uma relação antropofágica entre os personagens: o professor come Antônio, Antônio come o cangaceiro, Laura como
o comissário, o professor come Cláudia, os assassinos comem o povo, o professor come o cangaceiro.

Esta relação antropofágica é de liberdade.

Já antes eu devia ter feito assim, já em Deus e o Diabo, mas o relacionamento entre os personagens era um relacionamento fechado, com censuras entre eles; eram mais burgueses porque eu era mais burguês. Ao invés em Antônio das Mortes houve uma abertura total, assim para os filmes dos outros autores: esta liberdade, nova para nós, criou a possibilidade de uma relação nova com o público.

Ultimamente não temos feito nem filmes americanos, nem filmes populistas: eu acho que um cinema assim é menos conceitual (e por isto mesmo, esquemático) e penetra mais profundo em um público colonizado, como o nosso. Com o sistema imperialista não se pode fazer concorrência, mas se se faz um filme que chega diretamente ao inconsciente coletivo, à disposição mais verdadeiramente profunda de um povo, então se pode até vencer.

Por outro lado, não foi um fato programado este, chegar a vencer, foi um fato de crescimento. E ainda faremos filmes feios. Mas aquilo que conta é o público, e o público é diferenciado.

É uma procura estética política que se move debaixo do signo da individualização do inconsciente coletivo, e para isto existe o aproveitamento de elementos típicos da cultura popular utilizados criticamente.

Nos dias passados falei com Godard sobre a colocação do cinema político. Godard sustenta que nós
no Brasil estamos na situação ideal para fazer um cinema revolucionário, e ao invés disso, fazemos ainda um cinema revisionista, isto é, dando importância ao drama, ao desenvolvimento do espetáculo, em suma.

Na sua concepção, existe hoje um cinema para quatro mil pessoas, de militante a militante. Eu entendo Godard. Um cineasta europeu, francês, é lógico que se ponha o problema de destruir o cinema. Mas nós não podemos destruir aquilo que não existe. E colocar nestes termos o problema sectário é, portanto, errado. Nós estamos em uma fase de liberação nacional que passa também pelo cinema, e o relacionamento com o público popular é fundamental. Nós não temos o que destruir, mas construir. Cinemas, Casas, Estradas, Escolas etc.

De resto, por fim Godard compreendeu também, e cheguei a filmar como ator, um plano para seu filme,
no qual tenho muita fé. Uma inversão estrutural do gênero western pode ser muito interessante e útil
para nós diretamente. É importante o western, não somente para mim. Nós somos um povo ligado historicamente à saga, à épica. Nós temos uma grande tradição filosófica; e é um mal. Mas seria
um mal maior uma filosofia de importação que não corresponde à história. Por isto a antropofagia
é mais importante.

Podemos criar as tradições de uma indústria na qual o produtor é o autor. Hoje, entre nós a figura
do produtor é de um técnico que estuda o mercado para encontrar formas e soluções objetivamente econômicas, até chegar a tipos de planificação.

Existe o cinema brasileiro que antes não existia, e no seu interior existem muitas diferenças.

Tínhamos de construir as estruturas e descobrir os cineastas. Isto foi feito. Agora existe uma mudança
de tática, com um trabalho enorme (mas planificado, organizado) para difundir as possibilidades do cinema.

Falar de mito e linguagem é fundamental. É o centro do nosso problema. Se tendemos para uma revolução global, total, a linguagem deve ser compreendida no sentido marxista, como expressão da consciência.

Para nós o problema é de mais imediata compreensão, porque o analfabetismo leva a um tipo de percepção complexa e nós queremos desenvolver nosso cinema em uma dialética histórica permanente com a situação em movimento.

Existiram várias fases. O momento da denúncia social, influenciado pelo neo-realismo e pelo cinema social americano. O momento da euforia revolucionária, que tinha já limitadas e esquemáticas características populares. O momento, finalmente, da reflexão, da meditação, da procura em profundidade.

Nestes três momentos se encontram grandes diferenças de linguagem, mesmo em um só autor. Eu por exemplo neste momento estou menos influenciado. Antônio das Mortes tem menos detritos. As influências são mais subjetivas, mais íntimas.

O cinema do futuro é ideogramático. É uma difícil pesquisa sobre os signos (símbolos). Para isto não basta uma ciência, mas é necessário um processo de conhecimento e de autoconhecimento que investe toda a existência e sua integração com a realidade.

O mito é o ideograma primário e nos serve, temos necessidade dele para conhecermo-nos e conhecer.
A mitologia, qualquer mitologia, é ideogramática e as formas fundamentais de expressão cultural e artística a elas se referem continuamente. Depois poderemos desenvolver outras coisas, mas, este é um passo fundamental. O surrealismo para os povos latino-americanos é o Tropicalismo.

Existe um surrealismo francês e um outro que não o é. Entre Breton e Salvador Dali tem um abismo.
E o surrealismo é coisa latina. Lautreaumont era uruguaio e o primeiro surrealista foi Cervantes. Neruda fala de surrealismo concreto. É o discurso das relações entre fome e misticismo. O nosso não é o surrealismo do sonho, mas a realidade. Buñuel é um surrealista e seus filmes mexicanos são os primeiros filmes do Tropicalismo e da antropofagia.

A função histórica do surrealismo no mundo hispano-americano oprimido foi aquela de ser instrumento para o pensamento em direção de uma liberação anárquica, a única possível. Hoje utilizada dialeticamente, em sentido profundamente político, em direção do esclarecimento e da agitação.

O Cinema Ideogramático quer dizer isto: forma desenvolvida e aprofundada da consciência, a própria consciência, em relação direta com a construção das condições revolucionárias. A inteligência da crítica francesa, se bem que esnobe e por vezes acadêmica, tem salvo o cinema de uma mediocridade maior.
O que esculhambou o cinema italiano foi a crítica pseudomarxista. Bazin é muito mais inteligente do que Aristarco, embora Rosselini, Visconti, Fellini, Antonioni sejam italianos. A excelente crítica de Bazin formou apenas Godard – embora Truffaut pudesse ser um grande cineasta se fizesse psicoanálise. Dois cineastas franceses que acompanho com atenção: Resnais e Rivette. Mas enquanto o cinema francês permanecer
no domínio da razão ele estará limitado. E o pior é que esta razão é antidialética. Godard é suíço – um subdesenvolvido esmagado pelo país vizinho. E é protestante – um moralista tímido que se auto-explode para não morrer de medo.

Texto gentilmente cedido pelo Tempo Glauber

Tropicalismo para Iniciantes


Um filme, chamado “Bonnie and Clyde” está fazendo agora um tremen­do sucesso na Europa. E com uma força tão grande que sua influência es­tendeu-se à moda, à música, à decoração, às comidas e aos menores hábitos das pessoas. São os anos trinta que estão sendo revividos. Bem por den­tro dessa história e à procura de um movimento pop autenticamente brasi­leiro, um grupo de intelectuais reunidos no Rio - cineastas, jornalistas, compositores, poetas e artistas plásticos - resolveu lançar o Tropicalismo.
O que é?

Assumir completamente tudo o que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido. Eis o que é.

Porta-voz do tropicalismo, por enquanto. É o jornalista e compositor Nelson Motta, que divulgou essa semana, num vespertino carioca, o pri­meiro manifesto do movimento. E fazem parte dele, entre outros: Caetano Veloso, Rogério Duarte, Gilberto Gil, Nara Leão, Glauber Rocha, Carlos Diégues, Gustavo Dhal, Antônio Dias, Chico Buarque, Valter Lima Jr. e José Carlos Capinam. Muitas adesões estão sendo esperadas de São Paulo e é possível que Rogério Duprat, Júlio Medaglia e muita gente mais (os irmãos Haroldo e Augusto, Renato Borghi etc.) tenham suas inscrições efe­tuadas imediatamente. O papa do Tropicalismo - e não poderia faltar um - pode ser José Celso Martinez Correa. Um deus do movimento: Nelson Rodrigues. Uma musa: Vicente Celestino. Outra musa: Gilda de Abreu.

O Tropicalismo, ou Cruzada Tropicalista, pode ser lançado qualquer dia desses numa grande festa no Copacabana Palace. A piscina estará repleta de vitórias-régias e a pérgula enfeitada com palmeiras de todos os tipos. Uma nova moda será lançada: para homens, ternos de linho acetinado branco, com golas bem largas e gravatas de rayon vermelho; as mulheres devem copiar antigos figurinos de Luiza Barreto Leite ou Iracema de Alen­car. Em casa, nada de decorações moderninhas, rústicas ou coloniais. A pedida são móveis estofados em dourado e bordô, reproduções de Osvaldo Teixeira e Pedro Américo, bibelôs de louça e camurça, retratos de Vicente Celestino, Emilinha Borba e Cézar de Alencar. Nada de Beatles, nada de Rolling Stones. E muitos pufes, centenas de almofadas.

O Dia das Mães, o Natal e o reveillon do jaguar serão as grandes festas do Tropicalismo, que exige eventos e efemérides. 25 de agosto é data impor­tantíssima. E ninguém perderá uma parada de 7 de Setembro. Desfile de escolas de samba (em cadeiras numeradas) e o baile do Municipal são obrigatórios. Revistas de Gomes Leal, shows de Carlos Machado e filmes de Mazzaropi serão assuntos discutidíssimos. Cinerama também. Um ídolo: Wanderley Cardoso. Uma cantora: Marlene. Um intelectual: Alcino Diniz. Um poeta:
J.G. de Araújo Jorge. Um programa de TV: Um Instante Maestro. Uma canção: “Coração Materno”. Um gênio: Chacrinha.

E daí para a frente. Aliás, os líderes do Tropicalismo anunciam o movi­mento como super-pra-frente:

- É brasileiro, mas é muito pop.

O que, no fundo, é uma brincadeira total. A moda não deve pegar (nem parece estar sendo lançada para isso), os ídolos continuarão os mes­mos - Beatles, Marilyn, Che, Sinatra. E o verdadeiro, grande Tropicalismo estará demonstrado. Isso, o que se pretende e o que se pergunta: como adorar Godard e Pierrot Le Fou e não aceitar “Superbacana”? Como achar Felinni genial e não gostar de Zé do Caixão? Porque o Mariaaschi Maeschi é mais místico do que Arigó?

O Tropicalismo pode responder: porque somos um país assim mesmo. Porque detestamos o Tropicalismo e nos envergonhamos dele, do nosso subdesenvolvimento, de nossa mais autêntica e imperdoável cafonice. Com seriedade.

por Torquato

http://tropicalia.uol.com.br/site/internas/index.php

Põe e tá!

"Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela (...). Quem não se arrisca não pode berrar."

Torquato Neto

Limites ao Léu

POESIA: "words set to music" (Dante
via Pound), "uma viagem ao
desconhecido" (Maiakovski), "cernes e
medulas" (Ezra Pound), "a fala do
infalável" (Gothe), "linguagem
voltada para a sua propria
materialidade" (Jakobson),
"permanente hesitação entre som
e sentido" (Paul Valery), "fundação do
ser mediante a palavra" (Heidegger),
"a religião original da humanidade"
(Novalis), "as melhores palavras na
melhor ordem" (Coleridge), "emoção
relembrada na tranquilidade"
(Wordsworth), "ciência e paixão"
(Alfred de Vigny), "se faz com
palavras, não com ideias"
(Ricardo Reis/Fernando Pessoa), "um
fingimento deveras" (Fernando
Pessoa), "criticism of life" (Mattew
Arnold), "palavra-coisa" (Sartre),
"linguagem em estado de pureza
selvagem" (Octávio Paz), "poetry is to
inspire" (Bob Dylan), "design de
linguagem" (Decio Pignatari), "lo
imposible hecho posible" (Garcia
Lorca), "aquilo que se perde na
tradução" (Robert Frost), "a liberdade
da minha linguagem" (Paulo
Leminski)...

Enchantagem

de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo

esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima

de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito

pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito

que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar

tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade

o pau na vida
o vinagre
vinho suave

pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade


por Leminski

°

The Big Lebowsky

"Realidade objetiva, a puta mais barata no mercado das idéias."

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I

Confira
tudo que
respira
conspira

II

Tudo é vago e muito vário
meu destino não tem siso,
o que eu quero não tem preço
ter um preço é necessário,
e nada disso é preciso

III

Cinco bares,
dez conhaques
atravesso são paulo
dormindo dentro de um táxi

IV

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

V

O pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique


Textos por Paulo Lebowsky Leminski